César Cardoso, o fotografo de Cascais, faria hoje, 1 de Setembro de 2020, 100 anos.

MEMÓRIA Fazia hoje 100 anos (1920-2020)César Guilherme Cardoso, o fotógrafo de Cascais


César Guilherme Cardoso nasceu na Freguesia de São Mamede, da cidade de Évora, a 1 de Setembro de 1920.
Filho de Perpétua do Rosário, o pai, Estêvão Correia, nunca o perfilhou pelo que apenas foi registado com os prenomes, César Guilherme. Só quando atingiu a maioridade (21 anos) pode solicitar, no tribunal de Évora, que lhe acrescentassem o apelido de família da mãe, Cardoso. (Em 1928) Aos oito anos chega a Lisboa, pela primeira vez. Passa a habitar com uma ama na Rua do Benformoso, na Mouraria. Aos doze anos trabalha como mandarete num dos hotéis da capital, sendo desta época a sua primeira fotografia. Volta várias vezes ao Alentejo, ora para junto da avó materna, Maria da Conceição Raposo, que morava na Azaruja, ora para casa de sua tia, Maria do Rosário Cardoso, que morava na Rua de Santa Maria, em Évora. É naquela cidade que toma contacto com a Ilustração Portuguesa, revistas que o fascinam com as suas fotografias de reportagem. Aos dezassete anos instala-se definitivamente na Amoreira, e passa a trabalhar no Hotel Paris e, posteriormente, no Hotel Palácio, no Estoril. Com o início da 2ª Grande Guerra, os turistas quase desapareceram da região e os empregos na hotelaria rarearam. Viu-se obrigado, em 1939, durante algum tempo, a procurar trabalho na construção da Estrada Marginal, primeiro como servente no troço em construção frente ao Hospital Santana, na Parede, e depois nas pedreiras de Abóboda. A sua ligação ao Hotel Palácio leva a tornar-se um dos primeiros sócios do Grupo Desportivo Estoril Praia, chegando a pertencer à direcção do clube nos anos sessenta e setenta. Em 1941 assenta praça no Regimento de Artilharia Ligeira Nº 1, em Évora. Especializa-se em apontador de peças. É então que o Governo Inglês informa o nosso, que caso não protegesse as ilhas atlânticas os ingleses viam-se na contingência de ocupá-las para as defender de uma possível invasão dos alemães.Todo o pessoal da sua companhia oferece-defesa das ilhas (1942), estando-lhes destinado o arquipélago de Cabo Verde, mas, como recompensa, pelo voluntariado unânime, as chefias militares, enviaram-nos para a Ilha Terceira, nos Açores, por dois anos. Foi o 1º Regimento militar expedicionário a sair de Évora, por lá estiveram mais de três anos, aquartelados em Nasce Água, sobre as Lages, tendo assistido à construção da pista de aviação, numa primeira fase, pelos ingleses e, posteriormente, pelos americanos, regressando à metrópole em 1944. Foi naquela ilha que comprou a sua primeira máquina fotográfica, a prestações, na loja dos Farinhas, em Angra do Heroísmo. Aprendeu a fotografar sozinho, tirando fundamentalmente retratos aos camaradas militares. Aos poucos, foi pagando a máquina com as fotografias que lhes vendia. A sua primeira reportagem fotográfica oficial foi quando o Governador do Distrito Autónomo de Angra do Heroísmo, António Francisco de Sales de Guimarães Pestana da Silva, visitou o 1º Regimento Expedicionário RAL 1, em Nasce Água, em finais de Janeiro de 1942. Em Maio desse ano é operado a uma úlcera no estômago, no Hospital Militar de Ponta Delgada, mas não lhe encontram nada. Em licença de convalescença passa o mês de Agosto no Estoril.
Vários jornais regionais editam pequenos artigos seus, durante o ano de 1942:
19/01/1942: «As nossas saudades», Notícias de Évora, n.º 12369, Évora, p. 2.22/01/1942: «Sentinela expedicionária», A União, Angra do Heroísmo.24/03/1942: «A história de todos», A Pátria, n.º 1013, Angra do Heroísmo.04/1942: «Carta de um soldado expedicionário», Notícias de Évora.12/05/1942: «Carta de um expedicionário às mães portuguesas», Notícias de Évora. (única vez que se assina como César Guilherme Cardoso Correia)10/1942: «Enfermeiras de Guerra» e «Agradecendo a tua imagem a alguém (Cascais)», O Sapador, 5, Angra do Heroísmo, p. 14.16/11/1942: «A uma desconhecida (Carmen)», O Sapador, 6, Angra do Heroísmo, p. 9.
No regresso do serviço militar casa pelo Registo Civil, em 4 de Outubro de 1944, em Évora, com a sua prima, Emília do Rosário Pereira. Mais tarde unem-se na igreja de Santo António do Estoril, tendo por padrinhos os Marqueses de Pombal, mãe e filho. No ano seguinte nasce-lhes a primeira filha que falece com meningite aos nove meses de idade.Desde o casamento que a família passara a viver na Amoreira, nas águas furtadas de um prédio na Rua Carlos Anjos.Ali, improvisou um pequeno estúdio fotográfico e ensaiou os primeiros passos a imprimir as suas imagens, diga-se sem nunca ter entrado num laboratório fotográfico. Era uma forma de auferir mais alguns rendimentos dos fracos proventos que lhe advinham do seu trabalho de empregado de mesa, na indústria hoteleira, que na época variavam conforme o número de clientes o hotel tinha por cada quinzena. Em 1951 volta a ser operado ao estômago no Hospital da Santa Casa da Misericórdia de Cascais. Torna-se então irmão da Misericórdia de Cascais. No ano seguinte, após o nascimento do terceiro filho, em 1952, muda-se para uma outra casa na mesma rua e dois anos depois volta a mudar-se definitivamente para uma vivenda na Rua Particular, frente à casa onde vivera os primeiros anos de casado. Será na sua nova habitação que monta um estúdio fotográfico e um laboratório de câmara escura no sótão. Durante o dia trabalha na hotelaria. No Verão, entre as 11 horas e as 14 horas, desloca-se pelas praias do Estoril e Monte Estoril, onde tira fotografias a famílias veraneantes lisboetas, fundamentalmente crianças, na praia. Aos fins-de-semana faz reportagens fotográficas em actividades desportivas, casamentos, baptizados, festas, actos solenes, bailes, etc. Durante a noite e fins-de-semana revela os rolos e imprime as fotos. Durante anos fotografou as mais belas paisagens de Cascais e Estoril, mandando fazer postais que eram vendidos no Cabo da Roca e nos hotéis da Linha.
A 5 de Fevereiro de 1959, começa a colaborar como repórter fotográfico no Mundo Desportivo e, em Agosto de 1962, começa a colaborar com o jornal A Nossa Terra. Em 1963, a carteira de clientes que tinha permitiu-lhe deixar definitivamente a indústria hoteleira. De entre os clientes habituais tinha diversas famílias de renome a viverem no Estoril, caso dos condes de Barcelona. No ano seguinte, torna-se um dos accionistas fundadores do Jornal da Costa do Sol, passando desde aí a dedicar grande parte do seu tempo a registar fotograficamente bem como a escrever pequenas notas sobre os concelhos de Cascais e Oeiras. Diga-se que no aspecto de repórter fotográfico manteve uma grande disponibilidade para toda a imprensa regional, fornecendo muitas das imagens que ilustraram as suas páginas, como seja o caso dos já citados ou dos periódicos que apareceram a partir dos anos 70. Entre outros, O Pódio, A Zona, Correio da Linha, etc. No ano de 1971, toma de trespasse a loja do Fotógrafo Leonel Lourenço, na Av. Valbom, fixando-se de vez em Cascais, como industrial de fotografia. Até 1974 mantém o hábito de fazer a cobertura fotográfica aos veraneantes da Praia do Estoril que abandona devido aos seus clientes deixarem de frequentar aquela estância balnear.
Foram seus clientes de renome neste último período Humberto II, de Itália, e sua irmã, Joana de Sabóia, rainha da Bulgária. Muita da sua reportagem fotográfica passou a ser fornecida à Câmara Municipal de Cascais, fundamentalmente o registo fotográfico de todas as casas das antigas ruas de Cascais, em 1973, o registo fotográfico das cheias de 19 de Novembro de 1983, etc. Em 7 de Junho de 1996, recebe a medalha de Mérito Municipal da Câmara Municipal de Cascais. Morre em finais de Março de 2005.
O olhar de César Guilherme Cardoso (1920-2005) fixou mais de 60 anos da história de Cascais em milhares de fotografias, entre elas as dos monarcas exilados no concelho. No âmbito da sua actividade, e a partir do seu atelier em Cascais, César Cardoso estudou afincadamente as mais modernas técnicas ligadas à fotografia, tendo reunido um valioso acervo do qual parte actualmente se encontra no Arquivo Histórico Municipal de Cascais, por aquisição da Câmara Municipal.
Fonte:
Cyberjornalhttp://www.cyberjornal.net Potenciado por Joomla! Gerado: 12 June, 2012, 22:27